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Não é fácil ser um cara dedicado

As coisas apertaram como nunca antes. Tenho tentado ser dedicado, não é fácil suportar esse fundo buraco de merda, mas quando penso que não há possibilidade de voltar a frequentar aquele inferno dos outros,  me acalmo, embora seja um cara confuso e sozinho, há algum tempo escolhi as minhas próprias desolações.  O que eu pretendo descobrir é o mal de quando se está fora da diversão, quando um homem cabisbaixo percorre seu trajeto sem a sua sombra em companhia, ele não precisa mais dela, poucos sabem disso.

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Abaixo, o Bukowski explica o que é ser um cara dedicado e quais necessidades ele terá que suportar, afinal você desiste com certo alivio da merdas que os outros ingerem desde o café da manhã até janta, pelo resto de suas vidas.

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À uma da manhã: uma briga de jovens babacas, mas selvagens em suas mediocridades

Madrugada. Já estava bêbado quando vi a discussão iniciar. Todos com 19 anos completados. Bons amigos. Era uma noite fria na Augusta. Estávamos num bar que só tocava Beatles e nada de Rolling Stones. Planejávamos entrar em algum daqueles puteiros podres — naquela época eles davam uma bebida, normalmente, uma caipirinha vagabunda e ácida pra cacete, agregada ao valor da entrada — e uma vez lá dentro, enrabaríamos alguma puta de tetas dignas da grana que seria gastada.
— Para disso, mano, bora pros puteiro, largão mão — falou Fábio, segurando André e tentando acalmá-lo.
— Larga a mão? Esse comédia tá me tirando de otário — disse André.
— Pau no cú dele, deixa morrer essa história — falou Fábio, novamente querendo apaziguar as coisas.
Nesse momento o alvo do desentendimento, um branquelo alto e meio forte caminhou rumo ao rodeio.
— O problema é comigo, campeão? — perguntou o Branquelo.
— Campeão? Tu tá me achando com cara de garçom, filho da puta? — disse André.
— Ei, cara… — ia dizendo o Branquelo, mas logo foi interrompido pelo Fábio.
— Esqueci aí, mano, meu brother tá querendo desarrumar sem motivo que eu tô ligado — afirmou Fábio com um olhar revoltado para o André.
— Tô mesmo, seu branquelo do caralho, tu deve raspar o teu cú pro teu machinho toda noite só pra não ficar assadinho, né? — concordou André, apontando o dedo pra outro cara, esse mais moreno, mas também meio forte, do mesmo estereótipo do Branquelo.
Pronto: briga.
Assim que o Branquelo foi em direção ao André, sem se preocupar comigo, corri ao seu encontro e o derrubei com um empurrão executado com toda a minha força embriagada, força essa que quase não foi suficiente, pois o Branquelo bambeou um pouco antes de cair e, quase que num ciclo ensaiado de brodagem, num movimento espontâneo, o Fábio chutou o cara bem na boca do estômago. Faltava ainda a última encenação de André, que ainda teve tempo de chamar o Branquelo de “viado de academia” e julgar sua envergadura social, gritando “nem pra tu ser um viado bacana como Cazuza, Rimbaud e Roberto Piva, porra”, tudo isso antes de nos avisar “correm, caralho, correm”. Assim saímos do bar: endiabrados sem pagar a conta e com o cú na mão se alguma cambada viesse a nossa busca.
Depois de uns dois anos parei de andar com esses caras, eles foram cursar Direito numa universidade particular de merda e mudaram os únicos hábitos que salvavam suas índoles. Já eu parei de ir nesses bares de figuras exibicionistas, mas pra amenizar um pouco o sufocamento que a vida me impõe diariamente, continuo a frequentar esses puteiros podres, o foda é que agora eles cobram qualquer apertão nas putas.

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Tranquilas

Uma vez perguntei de que tipo de mulheres gostava. Era uma pergunta cretina, feita por um adolescente que só queria matar o tempo. Mas o Verme a tomou ao pé da letra e demorou um bom tempo matutando a resposta. Por fim disse: tranquilas. E depois acrescentou: mas só os mortos estão tranquilos. E ao fim de um instante: nem os mortos, pensando bem.

Trecho do conto “O verme”, de Roberto Bolaño,
no livro Chamadas Telefônicas.

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Real o bastante

Para escrever, precisa ter a franqueza das palavras espumando pela boca, precisa ter vivido com certa devoção pelo acaso, colocando na bagagem algumas lembranças remetidas à ternura que jamais o deixará. Claro que, diversas marcas da solidão sobrepostas durante este calvário tão distinto sempre aparecerão, mas é justamente isso que alimenta o reescrever e reescrever verídicas ilusões superestimadas. É por isso que eu caminho à esquerda de qualquer multidão, sozinho por aí, tentando encontrar o que parece real o bastante.

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Going, going, gone

Tô enfiado nisto, neste quarto em que o Bob Dylan não para de cantar aquela despedida Going, Going, Gone. Tenho tentando ficar numa boa, mas é difícil quando se faltam álcool e cigarro: todo aquele desgosto saltitando em veias secas. É um acordar e dormir simultaneamente, quase. Ainda posso ler, os Deuses ainda não tiraram isso de mim, pelo menos, senão teria arrumado alguma confusão que teria me jogado sem vida num beco de lamentações, onde as desovas são feitas precisamente. E é aí que acabo em discernimentos de desilusões e perdições provenientes de duros marasmos e, puta merda, é só o que eu tenho feito há tempos. Now, I’ve just got to go / Before I get to the ledge. / So I’m going, / I’m just going, / I’m gone.

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É só a desgastada melancolia de volta

Há algum tempo carrego comigo uma sobrecarga de melancolia fomentada por batalhas desnecessárias, sigo cambaleante, bêbado, pelas sarjetas de bairros boêmios se deparando com rostos venturosos, bem nutridos e sem expressões de apreensão. Não consigo compreendê-los. É como se algo estive fechado. Eu não escolhi essa realidade, não se escolhe esse tipo de infortúnio, de isolamento vocacional.  Em meio à multidão de prosperidade, com roupas limpas e de alta magnitude, pode-se encontrar, espalhados, perdidos, alguns desajustados em mesas desertas com whisky alimentando seus movimentos abatidos. Após a 3ª dose algum sentido começa a ser exposto nessa aflição de merda, mas não dura muito tempo, afinal, na manhã seguinte, os ombros voltam a desabar pelo mesmo peso já diagnosticado.

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